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Poemas

Amanda Barros da Silva

Do projeto O verso da minha versão.

A cigarra

Cantou como se não me surpreendesse.
Expôs a melodia enquanto eu ouvia
O tom mais doce da lembrança.
A infância que ora esquecida.

Pensei se ainda existia
Algo que me remetesse
A arremeter, parar no tempo
Enxergar os chinelos recém arrebentados
No fim da tarde
E o vento passando vagarosamente.

Trouxe-me o pavor de um lugar
Acabando aparente e bonito.
Trouxe-me o sorriso de uma vida
Breve e com sentido.

Porque cantou passei a lembrar
Que cantava.
E o que mudou?
Tudo. Mesmo sabendo pouco.
Nada. Embora vivido muito.

É meio assim.
Coisa de dualidade Camoniana.
Até a Cigarra
Que no trocar do gênero
Deixa de ser inseto.

Projeto de crônica não sendo uma

Hoje eu vi...
Vi o sol nascer já se pondo naquele céu cinza de poluição do Rio de Janeiro atingido pelas más novas da atualidade. Caminhando apressada ao atraso de um compromisso marcado no pulo do gato ou somente no pulo, vi um gatinho passando horas depois. Atravessando as quadras com aquela ânsia de chegar ao destino eu vi... um homem na rua deitado no chão, nas mãos um pequeno livro, foleando-o como se as mazelas não estivessem ali, como se não as recebesse por visita todas as manhãs, em seu espaço, de sua posse, a única coisa que o faz poder.

Mas será?
Eu vi... o acesso chegando até ele, mas um oceano ficando para fora, sem saber ou sabendo da existência de tantas coisas se distanciando e se aproximando na medida em que ía lendo. E eu... com os olhos fixos na imagem, deixando pegadas, uma após a outra sendo nocauteada pelo tempo que cruel passara como eu. Rápido e destinado, a passar.

Eu vi... oportunidades se apresentando e outras mil deixando-o, abandonando-o com pretensão. A pobreza é o projeto do sistema capitalista e a cegueira social também. Não é não vê-lo, é não considerá-lo parte do todo. Como se a calçada estivesse vazia. E estava... vazia de nós e cheia de incredulidade, a repetição arrasta. Palavras simples, daquelas que eu desejasse jogá-las ao vento e encontrassem alguém que pudesse ler isso. Nem sei mais o que estava dizendo. Agora me lembro... estava virando a esquina atrás de uma moeda para trocar pelo meu tempo. Esquecendo e tornando trazer a lembrança de um leitor marginalizado.

Bateu a vontade de fazer poesia... a arte se manifesta quando a realidade é demais. Quando precisa alienar.
E até pra isso, eu tenho escolha. Tudo muito óbvio, embora agora sabido.

Silêncio

É no silêncio que escuto a sua voz.
Na beleza das paredes cinzas, frias, sem nomes, mas cheias de identidade...
Ouço o sobrevoo, as aves que passam, as frases que perpassam, em volta, entorno, em tudo, nada, em nada, você.

É nesse tempo que ainda não encontrou o espaço...
No cheiro de sereno,
O caminhar das formigas,
Os tons de verde,
O chão calado por ser ouvido
Reverberando o anseio
Daqueles passos...
No passo a passo
Do nosso passeio.

São nessas cores que eu morro,
Me desmonto,
Me desfaço,
Assim mesmo!
Sem colocar o pronome para depois.
Sem regras.
Animalesca!
Mas esperando a paciência fazer efeito.

Na cadeira onde tudo começa.
Na porta onde tudo termina.
Quase tudo...
Não me faço deixar sozinha por um minuto.
É o silêncio que ocupa o seu lugar...
Trazendo-me a novidade de novos pensamentos.

Borboleta

Eu danço no vazio sem música para me aplaudir.
Minha existência basta,
Sendo a transformação das minhas dores.
Chego longe, olho para baixo e até medo de cair eu tenho.
Eu caio
E o impacto da minha queda me impulsiona para um voo brilhante com a ajuda do vento
Secando todas as lágrimas que para atrás ficam.
Evaporam-se tornando-se chuva.

A altura que me assusta é o tamanho da minha coragem.
Sou guiada pela natureza a chegar à lugares altos,
Mas minha sina é estar perto das flores,
Pousar nos dedos de um estranho
Ou passar por um casal apaixonado.
Estou sempre observando como é amar bonito...
Somente observando.

Transformo a vida inocente ao encanto de um encontro doce.
Estou desaparecendo...
Estou na verdade, aos olhos raros,
Àqueles que admiram marcas pintadas em meu corpo.

Voar é o que eu sei fazer.
Ainda não aprendi como parar.
Na verdade... nunca quis alguém que me ensinasse,
Porque mais difícil do que voar...
É desistir de seguir tentando.

Meu destino é ser livre,
Não ter pressa de chegar.

--- Saber que a vida é um lindo passeio
E que eu nasci Borboleta...
É tomar lugares sem precisar pedir licença.

Amanda Dançarina

Amanda dançarina gostava muito de brincar com sua imaginação, fruto de uma infância que possibilitou ela sonhar...
com cavalos de chifre, músicas aleatórias e alguém que pudesse abraçá-la a qualquer momento no momento da angústia.

Amanda dançarina acreditava que o herói sempre viria, mas ele nunca veio, ou melhor, ele existia, somente para Amanda dançarina.

Amanda dançarina sorria e chorava por qualquer coisa, permanece ainda hoje com tanta força e potência, que só poderia vir de uma grande parte dentro de uma outra Amanda.

Amanda não dança mais como Amanda dançarina, entretanto, aprendeu a compor suas próprias canções, assim fica fácil de movimentar o corpo.

Amanda dançarina não sabia nada de dança e nada de música, mas sabia inventar. Inventava tão bem que sua realidade era outra, paralela aos declínios de uma sociedade desconhecida e aos perigos da convivência.

Amanda dançarina amava conviver.
Amanda dançarina tinha uma energia apaixonante.
Amanda dançarina dançava do seu jeito e era feliz, quando as opiniões eram meramente burburinhos que não faziam sentido. Desde sempre, muito ligada à palavra. Queria dar sentido a tudo e percebeu que o conhecimento é um lugar solitário e preservar sua ignorância lhe traria paz.

Amanda dançarina não queria paz. Não tinha ideia do significado. Queria dançar.
Amanda dançarina dançava. Amanda dança. Amanda dançará por muito tempo.

Amanda está orgulhosa de conhecer as notas de uma bela canção. Amanda dançarina que lhe ensinou.

Rio de Janeiro, 07.06.2024.

E quando você chegar

E quando você chegar... não terá café na mesa, sequer o jantar, a louça vai estar lá, a cama desalinhada como a deixou de manhã e a toalha ainda úmida.

E quando você chegar... vai aprender a chorar sozinho, abraçar seus próprios momentos, alimentar-se no vazio ao encontrar a si mesmo todos os dias.

E quando você chegar... o cansaço te dará a mão junto com a solidão. Irá dormir com os pensamentos desgovernados e mesmo assim acordará novamente. Sorte sua.

E quando você chegar... Irá colocar aquela música que te faz dançar com os problemas, vai sorrir para a vida e alguém do outro lado vai invejar sua alegria, mal sabendo em como você dribla tão bem a tristeza.

E quando você chegar... talvez não encontre ninguém, mas se terá sempre. Vai aprender aos poucos que isso importa. Vai assistir seu filme predileto sabendo o final para não se surpreender, ouvir Tim Bernardes e saber que BB soa bem em sua voz. Vai saber qual voz quer escutar.

E quando você chegar... tudo vai ser igual, mas diferente.
Você sempre vai chegar, porque em algum momento teve que se despedir.

Você sempre se espera até chegar.
E quando chega, pode encontrar quem estava procurando.
Você.

Amor amargo

Coração apertado.
Voz embargada.
Olhos escurecidos.
Amor amargo!
Não daqueles que se arrepende, mas aqueles que escolhe e sofre por exercício.
Gosto que se dá a dor de amar alguém.
Aquele mesmo que invade a alma e incomoda.
Traz os piores sentimentos dentre às melhores sensações do mundo, ser recíproco.
Nossa, a reciprocidade mata.
Mata o ódio, o trauma, a tristeza, más lembranças, a recordação que um dia chorava de não saber o que é amor.

Não é como um café, tá mais pra um chocolate amargo.
Aquele que se come e não reclama, visto que é chocolate.
Mesmo estranho é bom.
Há quem goste.
Há quem não goste.
E para os que não gostam, fica sempre a sensação de estranheza, embora se acostumem, embora tentem mudar até que fique doce.
Ouvi dizer que quanto mais amargo, mais próximo ao sabor original do chocolate.
Nem sempre estamos preparados para a origem nua e crua das coisas. Aquelas que são e mesmo sendo, não queremos mudar nada. E nem tô falando de chocolate.

Amor amargo!
Quanto mais amargo, mais real.
Ainda que irreal.
Natural.
A natureza do mar, por exemplo.
Lindo de se vê ao horizonte.
Gostoso ao nadar.
Mergulhar em ondas rasas.
"Jacarés" divertidos.
Entretanto, sabemos menos sobre as águas do que é estar no espaço.
Isso assusta. É tenebroso. É amedrontador.
Mas é lindo.
E se soubéssemos de toda sua natureza hostil assustadora...
Você ainda a amaria?

Chegamos ao ponto.
Quanto mais profundo vamos a existência de algo, ao conhecê-lo, ali e somente ali amamos. Escolhemos ficar ou não.
Exercemos o amor ou não.
Porque você não vai poder mudar aquela natureza.
Só contemplar, aceitar e esperar que o tempo faça algo.
Talvez não faça!
Amar é entender que ser, embora incômodo às vezes, é a coisa mais legítima que há no existir.
A água mesmo sólida, líquida ou gasosa, nunca, exatamente nunca mudará sua composição.
Vai continuar sendo água.
Vai continuar sendo H2O.
E a gente vai continuar amando e bebendo água.
Porque é essencial.
Amor Amargo!
Aquele bem sabido e aceito.